As Múltiplas Inteligências: Um Curso Introdutório
A teoria das múltiplas inteligências é de autoria do psicólogo americano Howard Gardner e consiste em determinar diferentes aspectos do intelecto humano que, segundo o mesmo, são chamadas inteligências. Estas, segundo Gardner, são: corporal-cinestésica, espacial, lógico-matemática, linguística, intrapessoal, interpessoal e musical.
Abaixo seguem resumos sobre cada uma das sete inteligências definidas por Gardner, junto com alguns trechos do seu livro Inteligências Múltiplas – A Teoria na Prática.
De modo a gerar um material complementar a este curso introdutório, elaboramos uma série de artigos sobre o tema que estarão referenciados em suas respectivas Inteligências.
Inicialmente recomendamos a leitura do artigo que fala sobre os impactos da Teoria na educação que é o foco da nossa abordagem: Aprender a Ensinar
Inteligência Musical
A inteligência musical consiste basicamente no reconhecimento de ritmos, timbres e temas musicais, além da reprodução e produção com facilidade notável. Está presente principalmente em músicos, cantores e compositores, mas pode se manifestar de outras maneiras como, por exemplo, em um mecânico que sabe o defeito do carro somente pelo ruído que o mesmo apresenta.
“Quando estava com três anos de idade, Yehudi Menuhin foi introduzido por seus pais, clandestinamente, na Orquestra de São Francisco. O som do violino de Louis Persinger fascinou tanto a criança que ela insistiu em ganhar um violino em seu aniversário e em ter Louis Persinger como seu professor. Conseguiu ambos. Quando estava com dez anos de idade, Menuhin era um músico internacional. (Menuhin, 1977)
A inteligência musical do violinista Yehudi Menuhin manifestou-se mesmo antes de ele ter tocado um violino ou recebido qualquer treinamento musical. Sua poderosa reação àquele som particular e seu rápido progresso no instrumento sugerem que ele estava biologicamente preparado, de alguma maneira, para esse empreendimento.”
Leia mais em: A mente Mozartista
Inteligência Corporal-cinestésica
A inteligência corporal diz respeito a como cada ser-humano utiliza seu corpo para interagir com o meio em que vive. Presente principalmente em atletas de ponta, é muito comum, também, em pessoas que executam trabalho de precisão como cirurgiões. Abaixo segue um trecho do livro de Gardner:
“Babe Ruth, aos quinze anos de idade, jogava na terceira base. Durante um jogo, o lançador de seu time estava se saindo muito mal, e Babe criticou-o em voz alta lá da terceira base. Brother Matias, o treinador, gritou: “Ruth, se você sabe tanto a respeito disso, VOCÊ lança!” Babe ficou surpreso e embaraçado, porque nunca lançara, mas Brother Matias insistiu. Ruth disse, mais tarde, que no exato momento em que subiu no montí¬culo do lançador, ele SOUBE que seria um arremessador, e que era “natural” para ele bater os outros. Na verdade, ele tomou-se um grande arremessador, importante na liga esportiva (e, é claro, obteve um status legendário como batedor). (Connor, 1982)”
Outra vertente mais “clássica” de manifestação da intelgência corporal está em artistas perfomáticos tais como dançarinos, bailarinos, mímicos, artistas de circo em geral e outros. Alguns exemplos mais conhecidos são David Elsewhere (dançarino do grupo Detours), o Grupo Pilobolus e os artistas do Cirque du Soleil. Entre atletas podemos destacar Michael Phelps (natação), Soufiane Touzani (Freestyle Soccer), Tiger Woods (Golfe), Michael Jordan (Basquete) e Lance Armstrong (Ciclismo).
Leia mais em: A mente Chapliniana
Inteligência Lógico-matemática
Ligada a forma como encaramos as situações do cotidiano para a solução de problemas complexos ou não. Consiste em “quebrar” grandes problemas em partes menores para sistematizar a solução ou encaixar o problema em modelo anteriormente conhecido. Como destaque para esta inteligência temos os principais mtemáticas da história como Gauss, Newton e Laplace.
“Em 1983, Barbara McClintock ganhou o Prêmio Nobel de medicina ou fisiologia por seu trabalho em microbiologia. Seus poderes intelectuais de dedução e observação ilustram uma forma de inteligência lógico-matemática freqüentemente rotulada como “pensamento científico”. Um incidente é particularmente esclarecedor. Enquanto fazia pesquisa em Comell, na década de vinte, McClintock deparou-se com um problema: embora a teoria predissesse 50 por cento de esterilidade no milho, seu assistente de pesquisa (no “campo”) estava encontrando plantas que eram apenas 25 a 30 por cento estéreis. Perturbada por esta discrepância, McClintock deixou o milharal e voltou ao seu escritório, onde sentou durante uma meia hora, pensando:
Subitamente, eu dei um pulo e corri para o milharal. No início do campo (os outros ainda estavam no fundo) gritei “Eureka, eu já sei. Eu sei o que os 30% de esterilidade são!” … Eles me pediram para comprová-lo. Eu sentei, peguei um saco de papel e um lápis e comecei a rabiscar, o que não havia feito em meu laboratório. Tudo aconteceu tão rápido; a resposta veio e eu saí correndo. Agora, eu a desenvolvi passo a passo – era uma complicada série de etapas – e cheguei ao mesmo resultado. Eles olharam para o material e era exatamente como eu havia dito que era; exatamente como eu havia diagramado. Como eu sabia, sem tê-Io feito no papel? Por que eu tinha tanta certeza? (Keller, 1983, página 104)”
Como exemplo mais contemporâneo temos Kim Peek, um portador da síndrome de Savant que era capaz de realizar cálculos matemáticos impressionantes e que inspirou o filme Rain Man estrelado por Dustin Hoffman. Outro exemplo conhecido é do matemático John Nash retratado no filme Uma Mente Brilhante – A Beautiful Mind.
Leia mais em: A mente Cartesiana
Inteligência Linguística
“Aos dez anos de idade, T. S. Eliot criou uma revista chamada Fireside, da qual ele era o único colaborador. Num período de três dias, durante suas férias de inverno, ele criou oito edições completas. Cada uma incluía poemas, histórias de aventuras, uma coluna de fofocas, e humor. Parte desse material ainda existe e demonstra o talento do poeta. (veja Soldo, 1982}
O dom da linguagem é universal, e seu desenvolvimento nas crianças é surpreendentemente constante em todas as culturas. Mesmo nas populações surdas, em que uma linguagem manual de sinais não é explicitamente ensinada, as crianças frequentemente “inventam” sua própria linguagem manual e a utilizam secretamente. Dessa forma, nós vemos como uma inteligência pode operar independentemente de uma específica modalidade de input ou de um canal de output.”
Leia mais em: A mente Machadista
Inteligência Espacial
A navegação nas Ilhas Caroline, nos mares do sul, é realizada sem instrumentos. A posição das estrelas, os padrões do tempo (condições atmosféricas) e a cor da água são os únicos marcos sinalizadores. Cada viagem está dividida em uma série de segmentos, e o navegador aprende a posição das estrelas dentro de cada um desses segmentos. Durante a viagem, o navegador precisa imaginar mentalmente uma ilha de referência quando passa embaixo de uma determinada estrela, e a partir disso ele computa o número total de segmentos, a proporção de viagem que ainda resta e quaisquer correções no curso que sejam necessárias. O navegador não vê as ilhas enquanto navega; em vez disso, ele mapeia sua localização em sua “imagem” mental da jornada. (Gardner, 1983)
A solução de problemas espaciais é necessária na navegação e no uso do sistema notacional de mapas. Outros tipos de solução de problemas espaciais são convocados quando visualizamos um objeto de um ângulo diferente, e no jogo de xadrez. As artes visuais também utilizam esta inteligência no uso do espaço.
As populações cegas ilustram a distinção entre a inteligência espacial e a percepção visual. Uma pessoa cega pode reconhecer formas através de um método indireto: passar a mão ao longo do objeto traduz a duração do movimento, que por sua vez é traduzi da no formato do objeto. Para a pessoa cega, o sistema perceptivo da modalidade tátil equivale à modalidade visual na pessoa que enxerga. A analogia entre o raciocínio espacial do cego e o raciocínio linguístico do surdo é notável.
Existem poucas crianças-prodígio entre os artistas visuais, mas há sábios idiotas como Nadia (Selfe, 1977). Apesar de uma condição de severo autismo, essa criança, em idade pré-escolar, desenhava com impressionante exatidão e destreza representacional.
Leia mais em: A mente Michelangélica
Inteligência Interpessoal
Com pouco treinamento formal em educação especial e quase cega ela própria, Arme Sullivan iniciou a intimidante tarefa de instruir uma criança cega e surda de sete anos de idade, Helen Keller. As tentativas de comunicação de Sullivan eram complicadas pela luta emocional da criança com o mundo que a circundava. Em sua primeira refeição juntas, ocorreu a seguinte cena:
Annie não deixou que Helen colocasse a mão em seu prato (de Annie) e pegasse aquilo que desejava, conforme estava acostumada a fazer com sua família. Aquilo se tornou uma batalha de vontades – a mão era colocada no prato, a mão era firmemente retirada. A família, extremamente perturbada, saiu da sala de jantar. Annie trancou a porta e continuou a tomar seu café da manhã, enquanto Helen jazia no chão chutando e gritando, empurrando e puxando a cadeira de Annie. Depois de meia hora, Helen andou ao redor da mesa procurando sua família. Ela descobriu que não havia ninguém mais lá e aquilo a desconcertou. Finalmente, sentou-se e começou a comer, mas com as mãos. Annie lhe deu uma colher. A colher foi jogada no chão, e a batalha de vontades começou novamente. (Lash, 1980, página 52)
(…)
A inteligência interpessoal está baseada numa capacidade nuclear de perceber distinções entre os outros; em especial, contrastes em seus estados de ânimo, temperamentos, motivações e intenções. Em formas mais avançadas, esta inteligência permite que um adulto experiente perceba as intenções e desejos de outras pessoas, mesmo que elas os escondam. Essa capacidade aparece numa forma altamente sofisticada em líderes religiosos ou políticos, professores, terapeutas e pais. A história Helen Keller-Anne Sullivan sugere que esta inteligência interpessoal não depende da linguagem.
Inteligência Intrapessoal
Num ensaio intitulado A Sketeh of the Past, escrito quase como um diário, Virginia Woolf discute o “algodão da existência” – os vários eventos mundanos da vida. Ela compara este “algodão” com três lembranças específicas e pungentes de sua infância: uma briga com seu irmão, ver uma determinada flor num jardim e ficar sabendo do suicídio de um antigo visitante:
Estes são três exemplos de momentos excepcionais. Eu os relembro com frequência, ou melhor, eles vêm à tona inesperadamente. Mas agora eu os escrevo pela primeira vez, e percebo uma coisa que nunca percebi antes. Dois desses momentos acabaram num estado de desespero. O outro, pelo contrário, acabou num estado de satisfação.
O sentimento de horror (ao ficar sabendo do suicídio) deixou-me impotente. Mas no caso da flor eu descobri uma razão, e, assim, fui capaz de lidar com a sensação. Não fiquei impotente.
Embora eu ainda tenha a peculiaridade de receber esses choques súbitos, eles agora são sempre bem-vindos; depois da surpresa inicial, eu sempre sinto, imediatamente, que eles são particularmente valiosos. E então, eu sigo em frente, supondo que a capacidade de receber choques é o que me toma uma escritora. Eu arrisco a explicação de que um choque, em meu caso, é imediatamente seguido pelo desejo de explicá-lo. Eu sinto que recebi um golpe; mas ele não é, como imaginava quando criança, simplesmente um golpe de um inimigo escondido por trás do algodão da vida cotidiana; ele é, ou se tomará, uma revelação de algum tipo; é o sinal de alguma coisa real por trás das aparências; e eu o torno real colocando-o em palavras. (Woolf, 1976, páginas 69-70)
Esta citação ilustra vividamente a inteligência intrapessoal – o conhecimento dos aspectos internos de uma pessoa: o acesso ao sentimento da própria vida, à gama das próprias emoções, à capacidade de discriminar essas emoções e eventualmente rotulá-las e utilizá-Ias como uma maneira de entender e orientar o próprio comportamento. A pessoa com boa inteligência intrapessoal possui um modelo viável e efetivo de si mesma. Uma vez que esta inteligência é a mais privada, ela requer a evidência a partir da linguagem, da música ou de alguma outra forma mais expressiva de inteligência para que o observador a perceba funcionando. Na citação acima, por exemplo, a inteligência linguística é empregada para transmitir o conhecimento intrapessoal ela corporifica a interação das inteligências, um fenômeno comum ao qual retornaremos mais tarde.
Leia mais em: A mente Freudiana
Aplicação das Múltiplas Inteligências
A Teoria das Múltiplas Inteligências, após a sua concepção, vem sendo bastante apreciada principalmente no campo da pedagogia.
Visto que a teoria descreve a inteligência como sendo um conjunto de talentos entre si, o conflito da mesma com os métodos pedagógicos tradicionais vem inspirando o surgimento de novas metodologias de ensino.
